Artigos - Stress
Stress: aspectos espirituais - 3ª parte
por Ivelise Amato e Sérgio Benedetti
Uma das mais eficazes vias de administração e controle do stress é a chamada via da "espiritualidade" - que não deve ser confundida com religião.
A espiritualidade é a essência de todas as religiões, mas não é privilégio de nenhuma. Cada religião apresenta suas teorias e dogmas, ligeiramente diferentes umas das outras, mas no âmago de todas elas persiste a idéia de que, em sua essência, o ser humano é de origem divina e estamos neste mundo para aprendermos a reconhecer isso e nos direcionarmos para a jornada de retorno às origens. Só que, por razões humanas desconhecidas, nos desviamos o caminho, principalmente quando nosso ego1 se apossa da "Verdade" e a transforma em mentira. Isso é perfeitamente compreensível, pois ele - o ego - é um substrato humano e não divino. A maioria das pessoas que se diz espiritualista vive escravizada por seus próprios egos e raros são os que conseguem ultrapassar as barreiras da ilusão (Maya).
"O homem cujo coração é como o oceano, a que afluem todos os rios e que, apesar disso, permanece constante e não sai de seus limites - o homem que sente o ímpeto dos desejos, das paixões e inclinações mas que, todavia, fica imóvel, esse alcança a Paz (Samadhi). Aquele porém que se entrega aos desejos não conhece a Paz e é escravo dos desejos inquietantes2."
Mas quando conseguimos "esquadrinhar" e direcionar nossas almas para a libertação e a paz, podemos viver em harmonia, desde que não nos esqueçamos de que este mundo não é nosso lugar de origem; que aqui somos hóspedes, convidados, para aprendermos a ser melhores.
Sermos piores é o mais fácil e, por isso, o grande número de pessoas desadaptadas e desajustadas. Sermos piores é nos entregarmos às paixões do ego e nos esquecermos de quem somos realmente. Sermos piores pode ser fácil no princípio mas, depois, torna a vida insuportável para nós mesmos. E qual a maneira para nos libertarmos desse conflituoso estado de coisas? Um dos principais caminhos para a integração e realização da alma é a disciplina espiritual (Sadhana), ou seja, a prática da concentração e da meditação, que nos levam de volta à nossa origem divina.
A concentração e a meditação podem servir como ferramentas eficazes para subjugarmos o ego (ilusão). Ego e Mente Instintiva são sinônimos e, enquanto não a esvaziarmos de seus conteúdos emocionais negativos, torna-se difícil dirigir e canalizar nossas energias positivas e criativas - que são qualidades da alma - para a plena realização do Ser como um todo. Fica difícil para a nossa Mente Analítica (Razão) se entender e se realizar. Por isso é muito importante que "limpemos" e "esvaziemos" nosso ego desses conteúdos emocionais negativos; eles são como verdadeiros demônios, criando, gerando e, muitas vezes, perpetuando estados de confusão, aberração e sofrimento.
O indivíduo que possui uma Mente Analítica saudável, isto é, não contaminada pelo ego, tem todas as probabilidades de se realizar em todos os aspectos: material, mental e espiritual. E esse é o verdadeiro Poder, pois é fruto da Razão, do Conhecimento e da Sabedoria, que são alguns dos atributos da alma, da essência do Ser. Esse pode ser o estado de "iluminação" apregoado pelos Budistas. Ser um iluminado é ser auto-consciente e isso é uma prerrogativa humana, que pode e deve ser alcançada aqui e agora. Não devemos deixar para depois, para quando abandonarmos este corpo, como pregam algumas doutrinas. A consciência, para nós que estamos iniciando nossa jornada para a auto-realização, só pode se manifestar enquanto estivermos encarnados; quando morremos, perdemos a consciência e a capacidade de processamento da mente analítica. Permanece a lembrança e o conhecimento do que a alma realizou: ela apenas sabe. Diferentemente de grandes mestres, como Budha, que ao abandonar seus corpos têm a faculdade e a capacidade de pensar e raciocinar em outras dimensões, porque se dedicaram, em vida, à pratica da concentração e da meditação. Será que você já ouviu falar de algum Budha que não tenha praticado meditação? Ela nos faculta criar outros corpos sutis, que poderão estar aptos a atuar em outras dimensões.
Mas isto é uma outra história... que fica para outra vez, pois foge ao escopo deste artigo.
Dar vazão às paixões do ego é equivalente a dar vazão às suas aberrações3 . O ideal é discipliná-lo e fazer dele um colaborador dócil e harmonioso, para que cumpra a missão que lhe foi atribuída desde a formação dos tempos: no estado animal primitivo, prestava-se a nos ajudar a sobreviver, através do instinto. Esta é a verdadeira natureza e finalidade do ego. E a melhor forma de discipliná-lo é a través da disciplina espiritual, da prática da concentração e da meditação.
Algumas técnicas para controle do Stress - a Respiração
Podemos passar vários dias sem comer ou sem beber água; mas a maior parte das pessoas não consegue ficar mais do que poucos segundos sem respirar. Tornou-se famosa na Índia uma mulher que, durante toda a sua vida, se alimentou de PRANA (PRANA = energia vital cósmica), unicamente através de sua respiração.
Na Yoga, a respiração é tratada como a "Ciência da Respiração" - PRANAYAMA.
Existe uma infinidade de técnicas respiratórias, mas todas e cada uma delas buscam um efeito e um resultado específicos. Há respirações para harmonizar, esfriar, esquentar, dopar, elevar níveis de consciência etc...
Alguns Yogues chegam a controlar a energia prânica de tal forma que conseguem fazer uma respiração a cada quarenta ou cinqüenta minutos; em contrapartida, a duração de suas vidas é prolongada para centenas de anos (tem-se notícia de que, no Himalaia, há pessoas com mais de seiscentos anos de idade). Para que uma pessoa se interessa em viver tanto tempo chega quase à incompreensão; mas parecem ser pessoas que alcançaram tamanho desprendimento material e espiritual que suas vidas santas estão voltadas unicamente para ajudar a humanidade a evoluir (imaginem se eles não fizessem isso, o que seria de nós!).
Segundo a filosofia do Pranayama, a prática regular ajuda-nos a superar os temores, mesmo o da morte; toda via sua prática nunca deve ser forçada. Pois pode ser prejudicial. Ela deve ser "conquistada" aos poucos. Deve-se inalar o ar cuidadosamente, retê-lo com precaução e exalá-lo com cuidado. Em outras palavras, você deve praticar a respiração obedecendo aos seus limites e à sua capacidade pulmonar e respiratória. A prática do Pranayama nos causa prazer, quando executada corretamente e seus efeitos são imediatamente percebidos.
Pessoas que possuem uma respiração "alta", isto é, utilizam os músculos do peito para respirar, estão utilizando e trabalhando o ápice pulmonar; essa respiração não ajuda a relaxar, levando-as à ansiedade (observe pessoas ansiosas respirando).
A respiração Abdominal
O ideal é praticar uma respiração abdominal ou diafragmática (essa respiração é relaxante) e, para aprendê-la, sente-se ou deite-se confortavelmente, de barriga para cima.
Coloque a mão direita um pouco acima do umbigo; inspire devagar pelo nariz e, ao fazer isso, deixe sua mão levantar (na verdade, "empurre" a mão através da distensão do diafragma); segure um pouco o ar e solte-o delicadamente, também pelas narinas, deixando sua mão abaixar; fique um pouquinho de tempo com os pulmões vazios para eles descansarem e, em seguida, comece o processo novamente. Se você estiver sentado, sua mão direita fará o movimento acompanhando a barriga para fora quando você inspirar e vindo mais ao seu encontro quando soltar o ar.
Quando se pratica esta respiração, deve-se tomar cuidado, pois ela é tão relaxante que nos predispõe a pegar no sono; pode e deve ser feita por pessoas ansiosas, nervosas e que tenham problemas de insônia. Os bebês e os animais, quando em repouso, respiram dessa maneira.
Quando você dominá-la o suficiente, pode deixar de usar a sua mão como referência; simplesmente faça um Mudra (gesto simbólico), unindo os polegares e indicadores de cada uma das mãos.
Para a prática da meditação, é bom que você já tenha treinado a sua respiração e possua algum domínio, o suficiente para ampliar a sensação de plenitude alcançada pela meditação.
Quando começar a dominar o mecanismo da respiração abdominal, comece a estabelecer tempos: um tempo para inspirar, dois tempos para reter, dois tempos para exalar e um tempo com os pulmões vazios. Você terá então uma proporção 1:2:2:1. À medida em que for dominando esses tempos, estabeleça uma nova contagem um pouco maior, mas que seja confortável, por exemplo: 2:3:3:2 ou 2:4:4:2. Procure se basear sempre na proporção inicial e vá duplicando os tempos à medida em que você progride. Essa proporção é a indicada pelos Mestres da Hatha Yoga.
Kaphalabhati (cabeça brilhante)
Essa respiração é também conhecia como "o Fole", por causa do esforço que devemos fazer usando o diafragma.
Sentado, com a coluna reta, inspire com o nariz e deixa seus pulmões encherem-se de ar; em seguida, faça uma "careta", levantando um pouco o lábio superior, mas sem deixar o ar escapar pela boca. Ele deverá sair pelas narinas com uma forte contração da musculatura abdominal. É mais ou menos como se você tentasse expulsar de suas narinas um mosquitinho indesejável.
Segundo a tradição, faz-se onze respirações iguais a essa e, em seguida, uma outra seqüência: inspire pelo nariz, enchendo bem os pulmões de ar. Em seguida, segurando o ar nos pulmões, aperte o queixo de encontro ao peito (osso esterno), enquanto contrai a musculatura da barriga e dos glúteos (nádegas). Segure a respiração nessa contração tríplice durante um tempo razoável, mas não exagere pois sua pressão poderá subir rapidamente. Faça três vezes.
Quando faz essas duas seqüências, você sente um forte calor e, quando exalar todo o ar dos pulmões, provavelmente você poderá ter a impressão de ver lampejos de luz - por isso esse Pranayama se chama "Cabeça brilhante". Em seguida, você deverá repetir a seqüência de onze "fungadas" e três vezes a de três contrações, ou seja, a proporção para este exercício é 11:3:11:3. Quem conseguir fazer este Pranayama corretamente e por um número aproximado de cem vezes, terá uma transformação no sangue, transformando-o de ácido em alcalino.
Este Pranayama deve ser feito preferencialmente pela manhã, pois promove uma super oxigenação cerebral. É considerado um exercício de purificação física e mental. Se praticado à noite, pode provocar insônia em pessoas estressadas ou nervosas.
A respiração Polarizada
Essa respiração, como o próprio nome indica, diz respeito ao masculino e ao feminino e, por isso, os homens devem iniciá-la e terminá-la pela narina direita e as mulheres, pela esquerda.
Para iniciar a respiração masculina, use sua mão direita; tape a narina esquerda com os dedos anular e mínimo da mão direita; os dedos médios e indicador ficam dobrados, encostando-se à palma da mão e o polegar fica esticado.
Inspire o ar pela narina direita, pressione-a com o polegar e segure o ar pelo tempo que lhe for confortável; afaste os dedos anular e mínimo da narina esquerda para que você possa soltar vagarosamente todo o ar através dela. Imediatamente, inspire pela narina esquerda, tape-a com os dedos mínimos e anular e retenha o ar nos pulmões pelo mesmo tempo do ciclo anterior; afaste o polegar da narina direita e deixe o ar sair lentamente através dela.
Toda essa seqüência é uma respiração: inspira pela direita, retém tapando as duas narinas, solta pela esquerda, inspira pela esquerda, retém tapando as duas narinas, solta pela direita.
A respiração feminina é exatamente o oposto: usa-se também a mão direita, mas dá-se início inspirando pela narina esquerda, retém tapando as duas narinas, solta pela direita, inspira pela direita, retém tapando as duas narinas, solta pela esquerda, completando uma respiração.
Este Pranayama é utilizado para purificar e tonificar os NADIS (meridianos), os Chakras superiores e reequilibrar todo o organismo; ele promove um grande efeito restaurador e equilibrador do corpo e da mente. Procure praticá-lo observando os tempos de inspiração, retenção e exalação e, se possível, faça-o na proporção 1:3:3:!:3:3.
A Polarizada é um Pranayama altamente recomendado para quando se está estressado, ameaçado por enfermidades, quedas de energia, inquietação, insônia etc.
Segundo a tradição, quando as correntes energéticas se descompensam, a alternância das energias solar e lunar que ocorre através das narinas (é por isso que temos dois orifícios no nariz) fica alterada e passamos a respirar mais tempo por uma ou outra narina. Isso provoca um acúmulo energético que pode nos desequilibrar e fazer baixar o nosso sistema imunológico. Por exemplo: uma pessoa melancólica que respire demasiadamente pela narina esquerda (lunar) pode ter o sintoma aumentado a ponto de entrar em uma depressão profunda; já um indivíduo nervoso que respire mais pela narina direita (solar) terá potencializada a sua agressividade, podendo tornar-se violento.
Logicamente tudo isso, quando ocorre, é de maneira sutil e está intimamente ligado a fatores físicos, mentais e até espirituais. Pessoas com depressão profunda ou violentamente agressivas podem ser momentaneamente auxiliadas pela prática do Pranayama, mas este não é suficiente como forma de cura. Nesses casos, deve-se procurar ajuda na terapia.
Faça 10 vezes esta respiração é só repita 40 ou 50 minutos depois.
A respiração Glandular
Este Pranayama relaxa e tonifica os meridianos do vago, simpático e para-simpático que, vindos da parte posterior da cabeça, descem paralelos pelo rosto, pescoço e terminam no plexo solar (é por isso que algumas pessoas têm câibras ou dores na região do estômago quando estão nervosas). Ele também estimula e tonifica a tireóide, pela contração que se faz no pescoço.
A técnica é simples: sente-se com a coluna reta, inspire pelo nariz e leve a sua cabeça bem para trás, sem exceder-se na contração. Faça um pequeno movimento lateral com a cabeça para os dois lados, balançando-a levemente e soltando o ar lentamente. Quando estiver com os pulmões vazios, contraia o queixo contra o esterno, contraia a boca do estômago e o ânus ou a região glútea (nádegas). Fique um pouquinho nessas três contrações e, em seguida, volte a inspirar, enchendo os pulmões de ar e levando a cabeça para trás. Faça o "balancinho" na região da nuca, solte o ar e faça as três contrações.
Todos os movimentos e contrações você deverá fazer obedecendo à sua capacidade pulmonar e lembrando sempre de que não se deve sentir desconforto ao fazer-se Pranayamas, mas sim prazer.
Se você tiver acessos de tosse durante os exercícios, isso significa que seus meridianos estão tensos e a tosse é natural; continue praticando e você verificará que ela passa.
A respiração Chinesa
Esse Pranayama é uma respiração essencialmente solar e visa alimentar o tônus energético do corpo pois, durante sua execução, deveremos bater com as mãos, uma de cada vez, suavemente, sobre o plexo solar. O ponto correto onde você deverá dar as "palmadinhas" fica na linha do esterno (meio do peito), logo abaixo das costelas e acima do umbigo; normalmente esse ponto é ligeiramente dolorido. Procure localizá-lo com a ajuda do seu polegar. Caso encontre dificuldade em localizá-lo, simplesmente dê as "palmadinhas" na boca do estômago.
Com a coluna reta, tape a narina esquerda com o dedo indicador da mão esquerda e, com os dedos unidos e espalmados da mão direita, bata leve e intermitentemente sobre o plexo solar. Enquanto você bate, faça uma inspiração profunda pela narina direita, segure o ar por um tempo confortável e solte-o lentamente pela mesma narina, ficando um pouquinho também com os pulmões vazios. Inicie outra respiração, perfazendo um total de 5 ou 6, sempre do lado direito. Como essa respiração é solar, deve-se sempre começá-la pelo lado direito, independente do sexo.
Ao terminar, muda a posição das mãos; com o indicador direito, tape a narina direita e, com a mão esquerda espalmada, dê os tapinhas, fazendo-a a mesma quantidade de vezes. Ao terminá-la, faça algumas respirações profundas, naturais e tranqüilas.
Esse Pranayama aumenta o tônus vital, equilibra a pressão arterial - tanto a alta quanto a baixa - e promove uma sensação de bem-estar.
1 Não se refere aqui ao conceito psicanalítico do Ego, mas sim ao ego enquanto parte instintiva e emocional de nossas mentes.
2 Baghavad Gïtä - cap. II - vers. 70
3 Aberração significa tudo o que se afasta do bem, da harmonia, do amor e da felicidade.
Ivelise Amato é pedagoga e economista. Consultora Organizacional e ex-Professora Universitária na FATEC-SP e . Ministra, em parceria com o Prof. Sérgio Benedetti, o curso de Cibernética Mental e Desenvolvimento do Quociente Espiritual.
Professor Sérgio Benedetti é formado em Terapia Floral pela Alma Flora Instituto de Pesquisas e em Ortomolecular pelas Faculdades Anhembi Morumbi. Especialista em Reiki e Terapia da Linha do Tempo, é o autor do curso de Cibernética Mental.
