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O corpo é o espelho da mente

Excertos de artigo publicado na revista Veja de 28.03.2003

"Tudo é questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo, cantava Walter Franco nos anos 70, no que era uma síntese do modo de vida hippie. Hoje, esses versos caberiam num relatório médico. Pesquisas recentes dão respaldo científico a uma crença que, divulgada no Ocidente pelo pessoal do paz e amor, está na base de filosofias orientais milenares - a de que uma mente apaziguada ajuda a prevenir doenças, acelera a recuperação física e até cura. O contrário também se revelou verdadeiro. Pensamentos e sentimentos negativos contribuem para o surgimento de moléstias e atrapalham o restabelecimento de um doente. Rancor, hostilidade, ressentimento e angústia podem estar na origem de distúrbios cardíacos, hipertensão, depressão, ansiedade, insônia, enxaqueca e infertilidade. Além disso, o peso dos sentimentos ruins debilita o sistema imunológico, fazendo com que o organismo se torne um alvo fácil de infecções, alergias e doenças auto-imunes, como a artrite reumatóide.

A partir dessa constatação, os pesquisadores resolveram examinar a fundo métodos de aprimoramento mental que, há pouco mais de duas décadas, vinham embalados numa aura de puro misticismo. Ioga, meditação e relaxamento viraram objetos de inúmeros estudos a respeito de sua eficácia terapêutica. As conclusões, até o momento, são bastante positivas. 'Depois de analisarmos com rigor o alcance dessas técnicas, passamos a utilizar tais métodos como linha auxiliar de alguns tratamentos', diz o psicólogo José Roberto Leite, coordenador da unidade de medicina comportamental da Universidade Federal de São Paulo.

Um dos maiores investigadores do poder da mente sobre a saúde é o cardiologista americano Herbert Benson, da Universidade de Harvard, autor do livro Medicina Espiritual. Pesquisas conduzidas por ele mostram que, em média, 60% das consultas médicas poderiam ser evitadas, caso as pessoas usassem sua capacidade mental para combater naturalmente tensões que são causadoras de problemas físicos. A meditação, demonstra Benson, figura entre as maneiras mais efetivas de fortalecer a mente. Meditar, no caso, não significa pensar detidamente sobre um determinado assunto ou aspecto da vida. Quer dizer justamente o contrário: não pensar em nada durante uma certa parte do dia. É dessa forma, esvaziando a mente das atribulações cotidianas, que os monges budistas tentam atingir o nirvana - aquele estado de absoluta suspensão do ego através do qual se consegue escapar das aflições que costumam tumultuar o cérebro da maioria das pessoas, prejudicando sua saúde. Para os seguidores de Buda, esse é o supra-sumo do conhecimento e da felicidade." ... "Os resultados obtidos pelas pesquisas (na área médica - destaque nosso) serviram como chancela para que a meditação entrasse para o cardápio dos serviços ambulatoriais e hospitalares."

Segundo o artigo, hospitais como o Columbia Presbyterian Medical Center, em New York, o Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo e o hospital da Universidade Federal de São Paulo utilizam e indicam a meditação para pacientes tanto submetidos a procedimentos cirúrgicos, para reduzir a ansiedade, quanto para tratamento de hipertensos, pacientes com quadro de dor crônica, quadros fóbicos e transtornos obsessivo-compulsivos.

Para fazer a meditação, a pessoa deve sentar-se confortavelmente, com a coluna ereta e os olhos fechados, de preferência. O distanciamento da mente pode ser obtido através da repetição incessante de uma palavra ou de um mantra. Para obter o efeito desejado, a meditação deve ser feita duas vezes ao dia, de manhã e à noite, preferencialmente sempre nos mesmos horários, durante vinte a trinta minutos. Sua prática diminui a pulsação, a pressão sangüínea e o ritmo respiratório. Essas reações do metabolismo são especialmente efetivas no combate à hipertensão e à enxaqueca. A meditação feita com regularidade contribui no tratamento de depressão, ansiedade, insônia e até infertilidade.

Quanto ao relaxamento, das diversas técnicas existentes, "a que mais agrada aos médicos é a que foi desenvolvida na década de 30 por Edmund Jacobson, um fisiologista de Harvard. Ela abrange cerca de 30 grupos musculares e utiliza principalmente a respiração. Quando inspiram, seus praticantes tensionam os músculos. Ao expirar, eles os relaxam. Essa alternância faz com que o cérebro produza mais serotonina, o neurotransmissor que propicia a sensação de bem-estar. Um estudo realizado pelo psicólogo Luiz Paulo Marques, no Hospital das Clínicas de São Paulo, avaliou os efeitos desse tipo de relaxamento sobre mulheres vítimas de fibromialgia, um tipo de dor crônica muito associado a disfunções psíquicas. Os resultados foram surpreendentemente bons: as participantes relataram uma melhora da ordem de quase 90%."

Além disso, o relaxamento aumenta o número de células auxiliares de defesa, sendo indicado para prevenir doenças infecciosas. É bom também para quem sofre de dor de cabeça crônica, fibromialgia, artrite e síndrome do intestino irritável.

..."Do ponto de vista médico, uma das grandes vantagens das técnicas que trabalham a mente é que não há contra-indicação. Mas, segundo o cardiologista Herbert Benson, a longevidade e o bem-estar das pessoas estão baseados num tripé: remédios (não há substituto para a penicilina, por exemplo), cirurgias (a única saída para uma grande quantidade de problemas) e os cuidados pessoais (que incluem exercícios para o corpo e para a mente). Ou seja, a medicina preventiva agora prescreve não só dieta e ginástica, como também o cultivo das emoções e dos pensamentos positivos."

Os orientais conhecem a eficácia dessas técnicas há séculos. No entanto, apenas o conhecimento das técnicas e de seus benefícios não significa a garantia de sua aplicação. Para os povos orientais, a elas acostumados desde a mais tenra infância, a disciplina e a força de vontade necessárias à sua aplicação fazem parte de sua formação. Já para nós, ocidentais, não acostumados à autodisciplina, que praticamos a condescendência conosco mesmos e a satisfação de todos os nossos desejos, que temos uma pressa frenética e uma compulsão pelo "fazer", o fato de parar durante trinta minutos duas vezes ao dia - para relaxar e para meditar - pode se tornar uma tarefa hercúlea.

Desenvolver a autodisciplina, aprender a diferença entre "desejo" e "vontade", condicionar-se para parar e programar-se para uma vida harmoniosa, saudável e integrada, através do desenvolvimento e educação mental: esse é o propósito da Cibernética Mental. Como afirmam as pesquisas citadas na área médica, esse é o caminho!

Ivelise Amato

Ivelise Amato é pedagoga e economista. É Professora Universitária na FATEC-SP e Consultora Organizacional. Ministra, em parceria com o Prof. Sérgio Benedetti, o curso de Cibernética Mental e Desenvolvimento do Quociente Espiritual.